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A Criação De Jogos E A Dopamina

A Criação de Jogos e a Dopamina

 

O conhecimento acerca do funcionamento do nosso cérebro é um assunto que continuamente nos aprofundamos durante o nosso trabalho aqui no MDI. Seja antes, durante ou depois do almoço.

É um tema bastante atraente e que nos faz perceber o quão complexo é o cérebro, região onde podemos encontrar o neurotransmissor que será alvo da nossa abordagem neste artigo.

O que é a dopamina ?

A dopamina é um neurotransmissor produzido no cérebro humano, que foi descoberto por dois químicos suecos, Arvid Carlsson e Nils-Ake Hillarp em 1958, no Laboratório de Farmacologia Química da National Heart Institute da Suécia.[1] Os neurotransmissores são substâncias químicas responsáveis por enviar informações do cérebro para outras regiões do corpo humano.

A dopamina está envolvida em muitas coisas como: sono, regulação do nosso humor, atenção, movimentação, mas recentemente pesquisadores têm se aprofundado na relação da dopamina com as recompensas.

Há algumas décadas, os pesquisadores pensavam que a dopamina fosse a substância química associada ao prazer, e isso é algo que permeia a mente de inúmeras pessoas quando perguntadas sobre a funcionalidade da dopamina.

Anteriormente, pensava-se que a dopamina fosse produzida no corpo quando a pessoa experimentasse algo prazeroso, como fazer sexo ou simplesmente comer o seu alimento preferido.

Mas em estudos mais recentes realizados por Kent Berridge e Robert Sapolsky, assim como inúmeros outros pesquisadores, foi demonstrado que a dopamina não aumenta com a experiência prazerosa, mas na antecipação de uma recompensa ou experiência prazerosa.[2]

Para entendermos com mais profundidade o papel da dopamina, podemos dividir a reação das pessoas ao receberem uma recompensa em três aspectos diferentes, em termos de gostar, aprender a forma apropriada de conseguir e querer se esforçar para conseguir uma recompensa.

A dopamina e o gostar

Em uma experiência realizada há muito tempo, onde  eletrodos foram colocados no cérebro de ratos, tendo as regiões responsáveis pela produção de dopamina sendo estimuladas. Os ratos podiam ter essas partes do cérebro estimuladas ao pressionar uma alavanca. Em resposta a esse estímulo, eles abriam mão de dormir, comer e outras coisas apenas para ficarem pressionando a alavanca [3]. Com isso, pareceu plausível a ideia de que os ratos estavam sentindo prazer com o estímulo, pois se você faz algo para receber uma recompensa, a mesma deve ser prazerosa pra você, mas descobriram posteriormente que uma recompensa não precisa ser prazerosa para ser eficiente na mudança de comportamento, e que a dopamina não parecia ter envolvimento direto no “gostar” e prazer.

Isso pode ser demonstrado quando ratos modificados para não produzirem dopamina pareciam demonstrar que ainda “gostavam” das coisas. Estes mesmos ratos ainda tinham preferência por água com açúcar e outras comidas.[4]

Quando falamos acerca dos seres humanos, podemos observar pacientes com o mal de Parkinson, que não apresentam diminuição em gostar de recompensas, assim como sabores doces, já que o mal de Parkinson é conhecido por afetar a produção de dopamina das pessoas que o possuem.[5]

A dopamina e o aprender

Já que as descobertas acabaram revelando que a dopamina não estava relacionada com o prazer, com o que ela poderia estar relacionada ? Uma nova hipótese surgiu quando os cientistas perceberam um aumento na atividade da dopamina antes de uma recompensa ser entregue, e este aumento poderia estar ajudando os animais a preverem a chegada de uma futura recompensa.

Ao observarem um estímulo que foi associado com o recebimento de uma recompensa, o nível de dopamina aumentava, e esses níveis aumentavam ainda mais quando a recompensa era fornecida de forma aleatória.

Mas novos estudos também realizados com ratos mutantes, na Universidade de Washington mostraram que ratos que não podiam produzir dopamina, não somente ainda gostavam de recompensas, mas também eram capazes de aprender.[6]

A dopamina e o querer

De acordo com as pesquisas mais recentes, parece que a dopamina está mais relacionada ao querer uma recompensa, e este querer pode ser interpretado não como um sentimento subjetivo, mas como um motivador para se fazer algo. Quando se fala acerca do aprendizado, vemos que o mesmo estava apenas ocorrendo como um efeito colateral.

Os ratos mutantes que não produziam dopamina, simplesmente não tomavam a iniciativa para absolutamente nada, pois não havia neles motivação, no caso dos ratos com excesso de dopamina, apresentavam muito mais motivação para conseguirem a recompensa, tanto em termos de velocidade quanto de esforço. [7]

Já nos seres humanos, testes feitos em pacientes com Parkinson, ao receberem uma droga que aumenta a produção de dopamina, demonstraram diversos tipos de comportamentos compulsivos. [8]

Conclusão

Com essas inúmeras pesquisas sobre a dopamina, fica cada vez mais claro que ela não é o “hormônio” do prazer, pois a mesma parece estar mais relacionada ao querer e a motivação, este conhecimento pode ser de extrema utilidade caso uma determinada solução tenha como objetivo melhorar uma função cerebral.

Assim como o entendimento errôneo da funcionalidade da dopamina poderia levar alguém a criar produtos que, de acordo com a sua visão – errônea,  teria o objetivo de aumentar a diversão, quando na verdade o efeito poderia ser totalmente diferente, já que a dopamina não está diretamente envolvida no prazer, e sim na motivação, criando assim, uma experiência que não necessariamente seria divertida, podendo até mesmo ser compulsiva, levando o usuário a passar horas a fio utilizando o produto, mesmo sem ter a mínima ideia do porque ele não consegue parar de usar o mesmo.

Como vimos ao longo deste artigo, a dopamina teve a sua funcionalidade interpretada de forma errônea durante muito tempo, e como sabemos que a ciência está continuamente evoluindo em busca de respostas, temos como responsabilidade continuar nos atualizando acerca deste assunto para não cometermos erros que podem prejudicar as pessoas ao invés de ajudá-las.

[1] O que é Dopamina?

http://www.consultoriodamente.com/index.php?option=com_content&view=article&id=307:o-que-e-dopamina-&catid=48:salas-de-estudos-tecnicos&Itemid=65

[2] “Why Can’t I Stop Scrolling On My App Feeds?” https://www.youtube.com/watch?v=qcg5Mo4GRMY&feature=youtu.be

[3] Olds, J., & Milner, P. (1954). Positive reinforcement produced by electrical stimulation of septal area and other regions of rat brain. Journal of Comparative and Physiological Psychology, 47, 419–427.

[4] Cannon, C. M., & Palmiter, R. D. (2003). Reward without dopamine. Journal of Neuroscience, 23, 10827–10831.

[5] Sienkiewicz-Jarosz, H., Scinska, A., Kuran, W., Ryglewicz, D., Rogowski, A.,Wrobel, E., Korkosz, A., Kukwa, A., Kostowski, W. & Bienkowski, P. (2005) Taste responses in patients with Parkinson’s disease. J. Neurol. Neurosurg. Psychiatry, 76, 40–46.

[6] Robinson, S., Sandstrom, S.M., Denenberg, V.H., & Palmiter, R.D. (2005). Distinguishing Whether Dopamine Regulates Liking, Wanting, and/or Learning About Rewards. Behavioral Neuroscience, 119, 1, 5-15.

[7] Peciña, S., Cagniard, B., Berridge, K. C., Aldridge, J. W., & Zhuang, X. (2003). Hyperdopaminergic mutant mice have higher “wanting” but not “liking” for sweet rewards. Journal of Neuroscience, 23, 9395–9402.

[8] O’Sullivan, S.S.,Wu, K., Politis, M., Lawrence, A.D., Evans, A.H., Bose, S.K., Djamshidian, A., Lees, A.J. & Piccini, P. (2011) Cue-induced striatal dopamine release in Parkinson’s disease-associated impulsive-compulsive behaviours. Brain, 134, 969–978.

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